Depois de mais de duas décadas estudando internet e tecnologia, Ronaldo Lemos chegou ao Rio Innovation Week 2026 com uma preocupação diferente: como algoritmos e sistemas de inteligência artificial estão interferindo nas nossas escolhas?
Por: Redação Agência UpOne
Advogado, pesquisador e um dos idealizadores do Marco Civil da Internet, Lemos levou ao evento as ideias de seu novo livro, O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas. A proposta é olhar menos para o funcionamento dos dispositivos e mais para os efeitos que eles produzem sobre atenção, emoções, corpo e relações.
Um desses efeitos aparece justamente na forma como navegamos pela internet. Lemos compara os primeiros anos da rede, quando o usuário escolhia links e percorria caminhos com mais autonomia, com o ambiente atual, em que boa parte desse percurso é conduzida por sistemas de recomendação que selecionam o próximo vídeo, a próxima notícia, a próxima música.
E são muito bons nisso.
O problema aparece quando abrimos o celular para fazer uma coisa e, meia hora depois, estamos consumindo algo que nem pretendíamos procurar. Para Lemos, recuperar algum controle dessa relação exige perceber até que ponto os algoritmos estão influenciando escolhas que ainda consideramos nossas.
A inteligência artificial entra na mesma conversa. O pesquisador defende que usar a IA para apoiar o pensamento é diferente de deixar que ela pense por nós. Ele também alerta para a facilidade com que atribuímos características humanas aos sistemas, tratando-os como amigos, conselheiros ou até terapeutas.
O problema nessa relação, segundo Lemos, é que a IA consegue simular proximidade, mas não vive a reciprocidade, as discordâncias e os atritos que fazem parte das relações entre pessoas. É justamente por ser tão convincente que essa confusão merece atenção.
E no trabalho?
Empresas já usam IA para escrever, pesquisar, analisar informações, automatizar tarefas e apoiar decisões. O ganho de produtividade é evidente. O cuidado está em não transformar facilidade em dependência.
Se uma equipe deixa de pesquisar, questionar, revisar ou tomar decisões porque a ferramenta passou a fazer isso por ela, a eficiência conquistada no curto prazo pode cobrar outro preço: a perda gradual de repertório e capacidade crítica.
A reflexão de Ronaldo Lemos deixa um bom direcionamento: usar a IA para acelerar tarefas, sem terceirizar a ela decisões importantes, que exigem julgamento, responsabilidade e a capacidade humana de interpretar contextos e consequências.